Viagens de aprendizado

Viajar é ampliar o olhar, é tocar o chão de outras culturas e deixar que novos ventos atravessem nossa prática.
Nos caminhos que trilhamos, levamos a infância conosco – e voltamos diferentes, mais atentas, mais vivas.


Cada viagem é uma escuta, um espanto, um reencontro com aquilo que acreditamos.
Aqui, compartilhamos nossas andanças formativas,  porque voar também é sair do ninho… e voltar com o coração cheio de novas sementes.

Itália 2025

San Miniato – Onde o Coração da Toscana Pulsa com a Infância

San Miniato foi mais do que pouso. Foi casa.
Durante uma semana, essa pequena comuna no alto da Toscana nos acolheu com seu silêncio encantado, suas ladeiras de história e suas janelas voltadas para o infinito.

A partir dali, voamos todos os dias – e voltávamos ao ninho à noite, transformadas.

Visitamos a Escola Pinocchio, onde o olhar atento das professoras nos conduziu a uma conversa profunda sobre documentação pedagógica. À mesa do jantar, escutamos Aldo Fortunati – um encontro raro, que reafirmou caminhos.

 

Conhecemos a Scuola dell’Infanzia La Scala, onde mergulhamos no cotidiano de quem vive a infância com verdade. Escuta, presença, inspiração.

E, como despedida, o sabor simbólico de um almoço na Bottega di Geppetto, berço de tantas escritas e estudos sobre as infâncias, onde recebemos nosso diploma – não apenas em papel, mas na alma.

San Miniato nos ensinou que os lugares também educam. E este, sem dúvida, nos ensinou com delicadeza e firmeza, como só a boa pedagogia sabe fazer.

Firenze – Beleza que Inspira

Firenze não nos abriu as portas de uma escola — e nem precisava.

A cidade inteira nos educou com sua arte, sua história e sua luz dourada de fim de tarde.

Foi tempo de pausa, de revisitar lugares que amamos, de respirar beleza por todos os poros.

Entre pontes, cúpulas e vielas, a inspiração escorria pelas pedras.

E que sorte a nossa: viver tudo isso em boa companhia, com olhares que veem além.

Porque às vezes, aprender também é caminhar sem pressa, deixar-se tocar pela grandeza do mundo e permitir que ela se transforme em ideia, gesto e palavra quando voltarmos.

Firenze foi respiro.
E respiros também fazem parte dos voos.

Pistoia – Onde a Escola Respira Relações

Pistoia nos recebeu com portas abertas e corações atentos.
Logo na chegada, já sabíamos: ali, as famílias são presença viva. Estão nas paredes, nas palavras, nas ações — fazendo da escola um verdadeiro território de pertencimento.

A roda de conversa da manhã nos conectou.
As visitas aos espaços falaram por si: cada canto contava uma história de cuidado, de beleza, de escuta e de intenção.
A documentação pedagógica pulsava como memória viva do cotidiano.

À tarde, seguimos para a escola das crianças de 4 a 6 anos.
Ali, vimos o nascer da autonomia — das professoras e das crianças.
Uma prática que se enraíza, que respeita tempos, que dá voz e vez.

Pistoia nos lembrou que educar é, acima de tudo, construir vínculos.
E que uma escola onde todos se sentem parte é uma escola onde todos podem voar

Lajatico – Silêncio que Ensina

Lajatico, pequena em tamanho, imensa em sensibilidade.
Com pouco mais de mil habitantes e alma de poesia, é berço de Andrea Bocelli e abriga o emblemático Teatro do Silêncio — mas foi no silêncio das relações cotidianas que mais aprendemos.

Visitamos uma escola que acolhe crianças de 0 a 3 anos e 4 a 6 anos no mesmo prédio (o que não é comum na Itália).
Uma organização fluida, respeitosa, esteticamente encantadora — onde cada sala, cada detalhe, cada gesto, revela intenção.

Fomos recebidas com generosidade. Olhos nos olhos, escuta atenta, brinde ao encontro.
Saímos de lá com o coração leve e a mente inquieta. Há muito o que aprender com a harmonia e coerência desse lugar.

Em Lajatico, entendemos que o silêncio não é ausência — é presença plena.
Presença do cuidado, da estética, do vínculo.
Presença de uma infância respeitada, que fala até quando tudo parece calar.

Reggio Emilia– Onde Tudo Começa e Continua

Chegar a Reggio Emilia foi como atravessar um portal.
Não um portal de pedra ou madeira, mas de sentido.
Ali, onde tantos sonhos se originaram, nossos passos foram reverência e emoção.

 

As paredes falam.
Os materiais contam histórias de escuta, respeito e protagonismo.
Cada sala é um convite à pergunta, ao olhar demorado, à escuta sensível.

As palavras da guia, em italiano, seguidas de uma doce tradução, pareciam nos dizer:
“Vocês chegaram. Agora, levem esse chão nos pés e esse pensamento no coração.”

 

Estar no berço das abordagens participativas não foi apenas um momento de visita.
Foi encontro com tudo o que já vínhamos sendo.

E a certeza de que, mais do que estudar Malaguzzi, é preciso vivê-lo.

Bérgamo

Segunda Semana – Entre encontros, encantos e caminhos compartilhados

A segunda semana da nossa viagem começou ainda na sexta-feira, com a visita ao inspirador Centro Loris Malaguzzi, na comuna de Reggio Emilia. Um lugar onde a infância respira em cada detalhe, e onde nossas reflexões se expandiram ainda mais.
De lá, seguimos para Bergamo, acolhidas com afeto pela querida Paula Baggio — quem teceu com tanto cuidado cada fio desta viagem. Ali, ficamos até a quinta-feira seguinte, compartilhando quartos, cafés da manhã demorados, passeios cheios de descobertas, risadas que ecoaram pelos corredores e conversas que carregavam tanto de conhecimento quanto de amizade.

O final de semana trouxe um tempo livre, mas cheio de vida. No sábado, nos dividimos em pequenos grupos e partimos para Verona — a cidade de Romeu e Julieta. Entre praças, pontes e histórias, vivemos um dia encantador.
No domingo, o destino foi a região dos lagos: passeio pelos lagos de Endine e Iseo, com uma visita a Lovere. Entre águas tranquilas, montanhas e vilarejos que pareciam ter saído de um sonho, vivemos um dia inteiro de beleza generosa, onde a paisagem nos lembrava que aprender também é se deixar tocar pelo que é simples e grandioso ao mesmo tempo.

Entre um destino e outro, seguimos nutrindo o que nos move: a curiosidade, o encantamento e a certeza de que cada experiência se transforma em inspiração para a educação que acreditamos e cultivamos.

Milão – Nido Scuola Clorofilla

Na segunda-feira, seguimos para Milão e fomos recebidas no Nido Scuola Clorofilla, uma escola da infância que nos conquistou pela transparência em cada espaço e gesto. A riqueza da documentação pedagógica revelava histórias vivas, e as múltiplas possibilidades de vivências mostravam um lugar onde a escuta e a criatividade se encontram. Saímos de lá nutridas de saberes e inspiradas por uma prática que valoriza tanto o olhar quanto a presença do educador na vida das crianças.

Brescia – Nido Giostra, Scuola dell’Infanzia Abba e Instituto Pasquali Agazzi

Na terça-feira, 17 de junho, seguimos de Bergamo a Brescia, em um trajeto breve de 36 minutos, mas que nos levou a um mergulho profundo em novas experiências. Pela manhã, conhecemos o Nido Giostra, um espaço onde a infância dança entre cores, texturas e gestos de cuidado. Cada canto revelava intencionalidade, e cada olhar de criança nos lembrava da delicadeza de estar presente.

Ao meio-dia o almoço foi mais que uma refeição — foi um momento de troca genuína. Fomos servidas pelas próprias crianças, em um gesto simples e, ao mesmo tempo, grandioso, que nos fez refletir sobre autonomia, confiança e respeito.

À tarde, visitamos o Instituto Pasquali Agazzi e o MUPA — espaços que carregam uma história de compromisso com a educação e que nos ofereceram novas possibilidades de reflexão. Entre corredores e salas, sentimos a força de práticas que atravessam gerações e ainda hoje inspiram novas formas de ensinar e aprender.

Foi um dia que nos tocou pelo cuidado, pela escuta e pela capacidade de transformar o cotidiano em aprendizagem significativa — um convite para voltar aos nossos contextos levando não apenas ideias, mas sentimentos que sustentam a nossa prática.